Vidas em Laboratório

Priscila Terhaag

Jaulas, lâmpada fria, injeções. Uma queimadura de 2º grau exposta. Cortes e amputações sem anestesia. Lágrimas em decorrência de uma substância ácida aplicada diretamente nos olhos. Um cano introduzido garganta abaixo. Grunhidos de dor, interpretados como “reações adversas”. Estes são alguns exemplos de procedimentos aos quais animais são submetidos em laboratórios. À custa de seres vivos, desenvolvem-se pesquisas para elaborar produtos vendidos como “sinônimo de qualidade de vida”.
De acordo com a bióloga e membro do Grupo Fauna, Andresa Liriane Jacobs, precisa haver um questionamento da real função dessas pesquisas. “Está previsto em projeto que o objetivo é aumentar o número de publicações e também o benefício econômico de algumas empresas. È o uso de vidas para o enriquecimento de um currículo para um pesquisador”, reforça.
A bióloga afirma que o uso de animais em experimentos científicos faz parte da cultura de muitos pesquisadores e existe uma resistência em relação aos métodos alternativos. Além disso, cientistas desconhecem a lei de crimes ambientais e a desrespeitam a cada procedimento. Conforme a lei federal de vivisecção 6638/98, é obrigatório o uso de anestesia ou analgésicos durante o processo. Para Andresa, isso já inviabiliza muitas pesquisas.

 Veracidade dos resultados e a real necessidade de utilização de animais

Outro ponto colocado à prova é a fidelidade dos resultados obtidos nesses experimentos. Andresa cita o exemplo da Talidomida, testada em ratinhos e que precisou ser retirada de circulação após causar a má formação de fetos: “O que tem que ser salientado não são as semelhanças, mas sim, as diferenças de organismos”. Paulo Faccin, professor de Física da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e membro da Sub comissão de Ética em Experimentação Animal, diz que os testes são realizados por uma questão de conveniência: “Em alguns momentos os pesquisadores usam a pequena semelhança entre seres humanos e ratos para justificar uma pesquisa. Em outros, utilizam a pequena diferença. Eles assumem que a pesquisa é certa e só buscam a desculpa adequada”.
Não é possível transpor os resultados obtidos com animais para o ser humano.“Não é possível extrapolar para o ser humano. O que esses testes podem é dar um indício”, reforça Faccin. Entretanto, para a indústria, de acordo com o professor, também é conveniente o uso de animais, porque assim ela se exime da responsabilidade. Se o produto foi testado, então está quite com a justiça. Caso não se procedesse dessa forma, as indústrias e laboratórios se veriam obrigados a fazer testes mais sérios.  

Conscientização da sociedade

Tanto Faccin quanto Andresa acreditam que cabe à sociedade questionar essas pesquisas para que haja uma mudança. “Quando se começa a mostrar o holocausto a que esses animais são submetidos, mas passam de forma silenciosa dentro dos laboratórios, eu tenho certeza que muitas pessoas vão questionar. Quem vai fazer controle sempre é a sociedade”, declara Andresa. Gabrielle, esclarece que as pessoas não têm a mínima idéia do que se passa nos laboratórios. “A maioria nem quer se interessar pois incomoda. Não convêm às empresas farmacêuticas e às indústrias de cosméticos publicarem o que acontece em seus laboratórios e sim o lançamento de um novo medicamento”.

Histórico de Pesquisas com animais

A preocupação com o uso de animais em laboratórios é recente, advinda da crescente força do movimento ambientalista. A corrente de proteção aos animais, porém, precisa lutar contra mais de 2.500 anos de tradição na comunidade científica. Na pesquisa O uso de animais em pesquisas científicas, dos biólogos José Roberto Goldim e Márcia Mocellin Raymundo, os autores apontam que Hipócrates (450 a.C) já relacionava o aspecto de órgãos humanos doentes com os de animais. Anatomistas como Alcmaeon (500 a.C), Herophilus (330 – 250 a.C) e Erasistratus (305 – 240 a.C) realizavam vivisecções com o objetivo de observar estruturas.
Provavelmente foram as idéias de René Descartes (1596 – 1650), que defendia que a sensibilidade e o pensamento correspondem à alma, que exerceram forte influência sobre os cientistas. Os animais, por serem desprovidos de uma alma “racional” não sentiriam dor. Claude Bernard, fisiologista de meados do século XIX, declarava que o cientista deveria ser indiferente ao sofrimento de animais no laboratório. Em 1959, o zoologista William M. S. Russel e o microbiologista Rex Burch publicam um livro onde estabelecem os 3 “R”s da pesquisa em animais: replace (substituir), reduce (reduzir), refine (aperfeiçoar). Não substitui, mas tenta humanizar o uso. Essa proposta é precursora do modelo que tenta substituir o uso de animais.